2001  A epifania da luz – Margarida Sant’Anna

2001 A epifania da luz – Margarida Sant’Anna

Para alguns artistas, o branco da tela ou do papel pode inibir o ato criador; para outros, pode ser o suporte passivo da expressão: a resistência da matéria e o branco como cor ou campo luminoso parecem secundários. Na recente produção de Maria Villares, o branco resiste: luz e superfície são conquistas. Para a artista, a experiência com o mundo é uma forma de conhecimento, daí o enfrentamento com o suporte de trabalho e a busca pela luminosidade. Não existe “a prioris” nesse fazer: a possibilidade de uma poética manifesta-se apenas depois, uma vez construído e enfatizado o plano. Da materialidade do caráter bidimensional emerge então a trama de relações cromáticas e composicionais a partir da tentativa de ordenação do mundo sensível, que se dá pela redução de elementos da natureza representacional.

Existe algo de ético nesse fazer, nesse gesto refletido da experiência de ler das coisas mais do que a aparência delas. Uma síntese que pede ao olhar um tempo perceptivo outro — o tempo da contemplação — ao mesmo tempo em que propõe uma experiência diferenciadora para o olhar engolidor dos apelos visuais do mundo contemporâneo. E de fato, aquilo que parece, à primeira vista, elogio modernista do plano, oculta algo que somente a lentidão perceptiva pode desvelar. Da repetição paciente do gesto, como um artesão que alisa uma superfície, das sucessivas sobreposições da matéria, resultando em tênues variações tonais, a luz ganha corpo.

Raramente a artista se apropria de inscrições escritas na paisagem urbana londrina, ponto de partida de uma das séries presentes na exposição. Uma delas, entretanto, surpreende pela coincidência (se é que coincidência existe) — “godard” — e aqui, o círculo parece se fechar: em Passion, diante do “écran” branco, Godard (o diretor) indaga sobre a (im)possibilidade da criação. Maria Villares responde empiricamente a esse impasse. O sentido desses trabalhos é justamente a possibilidade do fazer artístico na relação direta com o mundo.

Margarida Sant’Anna, 2001 para a Exposição Individual na Galeria Nara Roesler.

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