2018  Maria tecendo nexus – Ana Angélica Albano

2018 Maria tecendo nexus – Ana Angélica Albano

“O dom de esculpir o orvalho só encontrei na aranha.”
Manoel de Barros

“As gotas de água parecem pérolas penduradas na fina seda da teia depois da vaporização do orvalho”
Jiang Lei   1

 

O fascínio de Maria Villares pelo desenho da teia de aranha salpicada pelo orvalho da manhã, encontra ressonância na poesia de Manoel de Barros e a inicia no oficio da tecelagem: tricotando águas passadas, materializa emoções, diz ela.

O simbolismo do fio, presente em muitas mitologias, é essencialmente o do agente que liga todos os estados da existência entre si e ao Princípio. Esse simbolismo exprime-se sobretudo nos Upanixades, onde se diz que o fio (sutra) liga este mundo e o outro mundo e todos os seres.

Maria refaz, simbolicamente, o caminho percorrido por tantas mulheres na antiguidade, especialmente na China, onde a tecelagem ritual era associada à tecedura do cosmos. No silêncio de seu ateliê inventa seu próprio rito de passagem, materializado em obras que nos permitem contemplar os estágios do seu processo de criação.

Inicia tricotando uma enorme trama de fios luminosos de PVC e vai nos enredando em casulos e módulos retangulares. Da tecelagem passa ao desenho de observação e nos surpreende com desenhos, onde registra, com precisão obsessiva, diversas fases da tecelagem. O que, inicialmente, era registro do tecido, dá passagem a um salto criativo e uma multiplicidade de experiências gráficas começam a surgir.

Desenhos delicados executados com gravetos, canetas e pincéis em papéis pequenos e, também, em papéis muito longos. Alguns desenhos são seccionados na horizontal e transformam-se em frágeis objetos protegidos por cúpula de acrílico. Podemos observar o trânsito continuo da tecelagem para o desenho, a pintura, a gravura e a assemblage, em experiências que se sobrepõem, se complementam e se renovam, sem que notemos a precedência de uma sobre a outra ou a passagem do tempo.

As tramas luminosas inspiram outras negras, assim como desenhos e pinturas densas, escuras que, aos poucos, nos devolvem novamente à luz. Com pinceladas e ranhuras coloridas, Maria deixa-nos entrever o ouro do processo alquímico de transformação da memória em invenção: obra.

Ana Angélica Albano
verão de 2018


1    Jiang Lei, cientista do Laboratório Nacional de Pequim, onde pesquisadores têm estudado como a seda da aranha é
capaz de reter o orvalho da manhã

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