a fiandeira do invisível

a fiandeira do invisível

entrei.

a grande e principal obra içada no centro do espaço se impõe e desperta curiosidade. conhecer um pouco mais do processo de sua feitura desperta ainda mais interesse e potencializa a apreciação. ela começa a falar e acaba por fazer um convite: observar em todas as direções. assim, o olhar se distribui pelo salão.

caminho.

deixo os olhos pousarem livremente pelas obras. as linhas, as releituras e as conexões vão se apresentando. seria a obra central algo como uma matriz, força geradora de outras tantas possibilidades expressivas? será que estou diante de um processo de releitura da própria artista e de sua obra, visitando e revisitando seu percurso?

que lugar incrível!

obras e visitantes são banhados pela luminosidade solar de um sábado de verão; dentro, uma atmosfera neutra destaca e valoriza as obras. toda a estrutura, minuciosamente arquitetada, vai aos poucos sendo incorporada pela produção da artista. após um tempo, tenho a sensação de que são as obras que sustentam o espaço.

chego logo após a abertura. portanto, ainda são poucos os convidados. por isso, ganho, como um presente, a companhia da artista e da curadora.

caminhamos. conheço mais dos processos, das convocações, dos chamados. uma sensação amorfa começa a brotar.

mãe e filhas bailam pelos sutis fios da conexão. me emociono.

subo as escadas. conheço o ateliê. ah, a beleza dos detalhes…

avisto o jardim ao lado.                     desço as escadas.

a luminosidade externa começa a diminuir. delicadamente, algumas luzes internas são acesas. as obras se projetam no chão e um novo desenho se apresenta. ah! pena não poder acompanhar as mudanças de luz até o anoitecer…

a sensação no peito ainda está lá, misteriosa.

afasto-me por uns instantes, vou para o jardim dos fundos e olho para o espaço, tentando decifrar o que se passa.

não decifro. ando mais um pouco tentando encontrar alguma resposta. converso um pouco mais. chegou o momento de ir embora.

muitas coisas me tocaram: as obras, o espaço, os cuidados delicados e discretos de produção e curadoria, os detalhes. a emoção chegou diante da obra em que mãe e filha estavam juntas.

mas havia, ainda, um pequeno mistério.

conversando com minha terapeuta na segunda-feira, reconstruo a experiência. ao narrar minhas percepções, surge, em minha imaginação, ativado pelo próprio relato, algo que até então não tinha conscientizado:

fios invisíveis.

havia uma delicada conexão entre a obra principal, a produção dela decorrente, o espaço e a artista.

reconstruindo a experiência dias depois, vem à mente a sensação de andar pela mata e sentir teias de aranha pelo rosto. pois foi assim que me senti: tocado por fios invisíveis e delicados, imperceptíveis ao corpo. perceptíveis num nível sutil.

o centro disso tudo?

a figura quase arquetípica içada no centro do salão, um manto transparente tecido por mãos incessantes,  resultado do desejo resoluto de não parar.

a obstinação de continuar compõe o cerne da obra. aprendendo com sua criadora, a obra decide criar suas próprias conexões, com o espaço e com o público.

assim fui tocado.

pela visível persistência de fiar o Invisível.

 

para
maria villares,

 

sérgio de azevedo
são caetano do sul,
verão de 2018.

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