2019 tecendo o tempo – Luiz Armando Bagolin

2019 tecendo o tempo – Luiz Armando Bagolin

“La durée est le progrès continu du présent qui ronge l’avenir et qui gonfle en avançant”

 

“A duração é o progresso contínuo do presente que rói o futuro e infla avançando.”
Henri Bergson

 

Em princípio, a série Nexus, de Maria Villares, pode parecer um ponto de inflexão, um desvio autoimposto em relação à sua trajetória pautada principalmente pelo desenho, pela gravura e pela pintura. Se nestes meios a procura gira em torno da capacidade que a linguagem tem de estar ainda a serviço da representação (as massas de cor são cingidas com luzes e sombras levando as imagens a se recomporem organicamente no campo abstrato), em Nexus, além de tudo isso, é a questão do tempo o foco central para a artista.

Maria trabalha com a estratégia, comum para muitos artistas desde a década de 1960, de seriação ou do desenvolvimento de ideias ou temas por conjuntos e subconjuntos, devidamente titulados, mas há uma ponte de ligação entre todos eles: a compreensão do tempo como índice da consciência ou do tempo intuído, aquele que dissolve a percepção do espaço como uma reunião de unidades classificáveis condicionadas ao tempo físico.

Bergson nomeou a este último de ‘variável t’, o tempo espacializado, passível de ser marcado num relógio e que era oposto ao tempo interior que referia o passado no presente, avançando incessantemente sobre o futuro. Ao contrário do tempo positivista ou das ciências empíricas, o tempo bergsoniano não admite a sucessão intervalar, as hiâncias que se desenvolvem linearmente desde o passado até o futuro. Relativamente, nele a ideia de progresso também é dissolvida, correspondendo os diversos momentos que vivemos a matérias apercebidas do mesmo tempo, que é sempre idêntico a si mesmo e contínuo na duração.

Indiferente à ‘variável t’, Maria Villares também produziu ao longo dos anos diversos trabalhos que se intercambiam quanto à questão da apresentação do tempo vivido, embora as suas matérias sejam variadas, assim como os seus resultados.

Para além da seriação ou de tão somente se compreender a sua obra como agrupamentos homólogos às várias fases de sua vida, o intercurso destes se dá mediante um canal de ligação, um elo.

Nexus é portanto uma espécie de amálgama do modo como a artista produz e se relaciona com o próprio trabalho. Mas Nexus nomeia igualmente uma série iniciada em 2001, ao observar as teias de aranha molhadas de orvalho na contraluz da manhã, segundo depõe a artista. É o momento da localização do universal no particular, com a possibilidade de construção de metáforas sobre as suas memórias: novamente aqui o tempo, inconsútil, perpassa o passado no presente, lembrando a ausência da mãe, e avança sobre seu futuro, representando o nascimento de uma de suas filhas.

Nexus enlaça e comenta outra série, anterior, ‘Muito além da maçã’. Em algumas das obras desta série, a fruta é vivissectada em finíssimas camadas, alterando-se minimamente o tegumento de sua semente. A anatomia da maçã é simultaneamente uma obra plástica e a busca pela origem de si em seus genes e cromossomos é metáfora de seu próprio corpo e do corpo da mulher como máquina criadora.

Em Nexus, a série, o corpo é reconstruído por meio do entretecimento de inúmeras tramas. Tal como na observação do endocarpo da maçã cortada ao meio, os nós das linhas que se cruzam nessas tramas se transformam em signos gestuais, espécies de assinaturas ou centros de encadeamentos de macromoléculas (novamente cromossomos?) que o desenho, a monotipia, a gravura, as frotagens e as costuras dão a ver. Mas estes são corpos diáfanos, sem ossatura, corpos macios ou moles que, ao ganhar o espaço, dependem cada vez mais do meio exterior para contribuir com a sua forma ou aparência final, porém temporária.

Da sequência de imagens planas nas quais os liames são representados como significantes em espaços gráfico-pictóricos aos casulos tecidos com linhas de nylon, Nexus busca ser a síntese das muitas séries passadas, e de incessantes buscas no ambiente da arte, lançando ao espaço literalmente a duração do tempo imaginado. É a partir deste tempo que as matérias tecem os espaços, grandes ou pequenos, não importa, adequados ao processo de consecução artística.

Nexus é também atualmente uma instalação que se apropria do grande vão interno da Biblioteca Brasiliana. Qual Medusa, estende-se tentacularmente em diversas direções, propondo novas considerações sobre o aparato arquitetônico projetado pela razão ordenadora: os seus inters- tícios e ligações somam-se, formando pouco a pouco um organismo agigantado e malemolente, semelhante à hera que avança sobre os muros arruinados da cidade em torno. Amarradas ao espaço, estas estruturas convidam o espectador a interagir, tal como em obras de Lígia Clark.

Há, no entanto, uma diferença fundamental entre esta instalação e as experiências derivadas do neoconcretismo: aqui não se trata de considerar o objeto perceptível como algo que será apenas apropriado e experimentado pelo sujeito percepiente. O casulo instalado aciona todas as demais experiências passadas da artista, quiçá também as do espectador, fazendo-as participar daquele tempo invariável e contínuo. Assim, a obra dependurada no espaço não está apenas ali, naquele lugar, mas em muitos outros, reapresentando-se, como afeto, por exemplo, nas redes fininhas que prendiam o cabelo de sua mãe no passado. Como fruto da intuição pura, ela é coincidente com a vida do Espírito, tornando-se em mais um gesto que teve por ocasião Maria.

Luiz Armando Bagolin