Depoimentos
Maria Villares

SÉRIE NEXUS *

Maria Villares

A memória interpreta o que se viveu ou o que se pensa ter recordado.    J.L.Borges

 

Certo dia, em abril de 2001, era ainda bem cedo, encontrei várias teias de aranha entre árvores e arbustos, de diferentes tamanhos e formas, cheias de orvalho.  Este encontro me tocou;  idéias começaram a surgir, relacionei as gotas de orvalho a lágrimas, aos líquidos liberados quando as tensões se liberam, segundo Louise Bourgeois.  Observei o trabalho daquelas aranhas, refazendo os fios continuamente com eficiência invejável.   Alguns dias depois comecei a tecer com os fios plásticos  transparentes.  Me ocupei com a construção da trama sem antever o resultado final; era preciso tricotar muito, construir teias, repetindo sempre meus gestos, continuamente, por horas. Por vezes tive a sensação da suspensão do tempo e o envolvimento intenso permitiu que a memória e os afetos aflorassem.  O fazer se fez trabalho... 

 Com o adensamento das malhas, e o volume acumulado em meu colo, após as primeiras horas,   senti como se uma grande quantidade de líquido houvesse se materializado pelo movimento  de meus dedos.  Fui tomada por intensa emoção e me lembrei de quando tricotava, há vários anos, apenas para manter minhas mãos ocupadas, construía peças utilitárias.  Era um fazer mecânico.  Agora a ação me pega por inteiro, a alma está presente, é uma atividade prazerosa, um fazer poético; existe uma intenção. É imprescindível o gesto repetitivo, envolvente, que dá forma a esse tecido, mas a perspectiva do projeto é muito maior.

Os desenhos começaram quando os primeiros módulos já estavam adiantados. Tive vontade de registrar as sobreposições dos fios, os nós, a linha ondulada e contínua.   Utilizei vários tipos de tinta, penas e canetas, eu mesma fiz algumas de bambu.  Estas variações geraram interesse especial porque ocorreram diferenças sutis na linha. Como aconteceu com o tricotar dos fios, também este ato de desenhar solicitou a repetição do movimento, atenção continuada e muita calma.  O olho fixo na linha das malhas, do já construído, capta o percurso dos fios e a mão os traduz em tinta sobre papel e ranhuras sobre tinta.
Acho que depois de montados, os módulos produzidos adquiriram um caráter de desenho no espaço, houve uma complementação, um espelhamento das duas produções. 

Em seguida surgiram os objetos, alguns feitos em técnica de crochê , estruturados por costuras e fios de chumbo.  E a produção continua com gravuras em metal e pintura sobre tela, sempre enfatizando a linha. 

Recentemente procurei obter informações sobre o artesanato brasileiro no que se refere a confecção de redes e obtive alguns dados interessantes. Creio que o meu trabalho não deixa de ser uma versão contemporânea dessa antiga prática dos nossos índios que utilizavam em seu artesanato várias modalidades de trançados e também diferentes tipos de agulhas, tanto p/ crochê como para tricô (vide ilustrações)

A trama e o tecer sempre estiveram presentes como expressão de arte ou de técnicas artesanais, tanto na aldeia indígena como no bairro rural.

Conforme consta em FUNARTE - 1978, descrevendo no Artesanato Brasileiro, a Tecelagem, às paginas 87 e 90: “ As mulheres Tupinambá fiavam o algodão e faziam redes.  Mas certamente não teciam, no sentido estrito do termo e suas redes mais se assemelhavam a um trançado.”  Na produção de rede de dormir talvez se encontre o mais importante fenômeno de convergência cultural por meio deste artesanato, fenômeno que mereceu exaustiva pesquisa de Luis Câmara Cascudo: Rede de dormir.  Uma pesquisa etnográfica (1959).

(*)  Nexus, us: enlaçamento, nó, laço.
      Nexus, a, um: atado, ligado, encadeamento das causas. ( dicionário latino)